Fenajufe repudia publicação do Estadão por usar imagem de mãos pretas para ilustrar matéria de crime cometido por adolescente branco

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A Federação Nacional das Trabalhadoras e Trabalhadores do Judiciário Federal e Ministério Público da União (Fenajufe), através do grupo de Pretas e Pretos da Fenajufe, repudia publicação do jornal O Estado de São Paulo (Estadão) que utilizou foto de uma mão preta para noticiar ataque praticado por um adolescente branco no Espírito Santo.

A Fenajufe entidade que representa as mais de 120 mil servidoras e servidores do PJU e MPU vêm a público manifestar REPÚDIO à matéria publicada pelo jornal Estadão, por entender que tal atitude reforça preceitos racistas de vinculação de pessoas pretas e negras com atos violentos.

As mídias jornalísticas possuem a missão de respeitar os direitos humanos, de adotar condutas antidiscriminatórias e de divulgar fatos no sentido de informar a população de forma isenta, algo nem sempre de interesse daqueles que detém o poder político e econômico. Quando se formula uma notícia sobre atos violentos, que no caso foi cometido por uma pessoa branca e, se opta por utilizar uma mão preta segurando uma arma, a mensagem é evidente: pessoas pretas são violentas e criminosas, mesmo que não sejam os autores dos atos.

O fato ocorrido na cidade de Aracruz na sexta-feira (25) localizada no litoral Norte do Espírito Santo resultou nas mortes de 4 pessoas até o momento e outras 12 com ferimentos graves. O atirador é um adolescente branco que vestia roupa com estampa militar e braçadeira com símbolo nazista, a arma utilizada era do seu pai, tenente da Polícia Militar que já tinha publicado em redes sociais promovendo o livro escrito por Adolph Hitler.

A música “Boa Esperança”, do cantor Emicida, demonstra como o racismo atinge pessoas negras em qualquer situação, sendo o tom de pele o ponto de julgamento da sociedade, inclusive pela mídia:

“Aí, nessa equação chata, polícia mata, plow!

Médico salva? Não! Por que? Cor de ladrão

Desacato invenção, maldosa intenção

Cabulosa inversão, jornal distorção

Meu sangue na mão dos radical cristão

Transcendental questão, não choca opinião

Silêncio e cara no chão, conhece?

Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece”

O racismo é uma herança maldita da escravidão que persiste aos dias atuais, ele está visível na falta de oportunidades, na ausência de negras e negros nos espaços de decisão e poder, nas precárias condições sociais onde são maioria e no número dos que passam fome e que morrem asfixiados pelo ódio racial.

O citado jornal alterou a imagem do noticiário após receber duras críticas, mas ressaltamos aqui que essa tentativa de retratação tardia não apaga atitude repugnante e inaceitável. Ao contrário, só intensifica a banalidade e o descaso com que a questão racial ainda é tratada no País.

A Fenajufe entende que a imagem reproduzida pelo jornal é uma ferramenta de promoção do racismo, do encarceramento da juventude negra e do extermínio dessa população. A presente Nota apenas se soma às demais manifestações da sociedade e expressa repúdio a essa e qualquer outra ação que venha menosprezar, anular, discriminar e criminalizar pessoas negras movidas pela intolerância e ódio ao tom da pele.

É por essas e outras que o grupo Pretas e Pretos da Fenajufe condena a publicação do jornal e consensua ao reafirmar que essa herança maldita do período colonial deve ser extirpada da nossa sociedade,

Eliminar o racismo parte de cada uma e de cada um, principalmente das pessoas brancas, pois, como define Angela Davis, “não basta não ser racista, é preciso ser antiracista!

Brasília, 29 de novembro de 2022

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